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--- Cuca relata dias de luta contra covid-19 em meio ao trabalho que fez do Santos finalista da Libertadores ---

por Cidadã FM

em 22 de janeiro de 2021


Era um sábado e o Santos jogaria no domingo, pelo Brasileirão. No meio da semana tinha sido eliminado da Copa do Brasil para o Ceará, mas o técnico Cuca, de 57 anos, sentia mais do que a pressão e o nervosismo de um momento de instabilidade do time naquele novembro. Era físico mesmo. Dor de cabeça, mal-estar, uma sensação de coração acelerado e o cansaço como se tivesse acabado de correr cem metros.

 

Depois de passar num hospital a 1,5 km do CT Rei Pelé, fazer exames e receber o diagnóstico positivo para covid-19, foi encaminhado a outro na capital paulista para ser internado. Uma precaução, dado o histórico de problemas cardíacos. O problema é que o quadro só fez piorar.

 

“Para os jogadores, a covid, graças a Deus, não deixa muitas consequências, porque eles são muito saudáveis. Já para a gente que é mais sedentário e com alguns problemas de saúde, como no meu caso, ela ataca. Atacou meu pulmão, peguei hepatite, fiquei seis dias no hospital, alguns com taquicardia, coração disparado, tomando muito remédio para controlar. Você vai piorando, vai piorando…”.

 

Aí, no sexto dia de internação a doutora Fabiana pegou no meu braço e falou: ‘você está mal, você está com pneumonia. Nós vamos te levar lá para a unidade crítica geral’. Eu perguntei: ‘você está falando sério?’. Ela: ‘sim’. E me levaram.”

 

Cuca ficou quatro dias entre UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e semi-intensiva. Além da hepatite, sofreu com lesões pulmonares e enfraqueceu muito durante o tratamento. Mandou áudios praticamente sem voz pelo celular, o que fez família e amigos temerem pelo pior. Depois daquele jogo, no dia 8 de novembro do ano passado, empate por 1 a 1 com o Red Bull Bragantino, o Santos teve outro no sábado seguinte —vitória por 2 a 0 sobre o Internacional— que o treinador nem viu, sonolento por causa dos remédios.

 

A luta que ele travava era por muito mais que três pontos. Uma luta da qual seu sogro, Augusto, de 81 anos, e tantos outros não saíram vencedores.

 

Para muitas pessoas esse é o fim, acaba. Você vai enfraquecendo, entuba, medicam para você não ficar se batendo e acaba. É assim. É um sopro, é um sopro. Assim acabou para o Marcelo Veiga, para o meu sogro, para mais de 200 mil brasileiros. Você não fica dono de você, fica refém, fica pensando que não está com a família, com os filhos, tua mulher, tua mãe, tua neta. Naquela hora você pensa: ‘será que eu podia ter feito alguma coisa de diferente?’.”

Sem chance de contato com familiares — o que é um dos grandes dramas da internação por covid-19 — e sabendo tanto do risco de morrer, quanto da consciência das pessoas próximas dessa possibilidade, Cuca colocou suas esperanças num objeto da sala da UTI.

 

“Tinha uma cadeira ali do meu lado e eu falei: ‘eu tenho que sentar nessa cadeira’. Não conseguia porque estava muito fraco, cheio de coisa enfiada, pendurada, dreno… Teve uma noite em que saí, lutei, tirei tudo aquilo e sentei na cadeira. Aí acho que disparou tudo os negócios lá, veio a médica e ela ficou mais feliz que eu, falou ‘você conseguiu sentar nessa cadeira, eu deixei ela para isso’. Eles fazem isso, sabe? Dali para frente peguei mais força ainda para sair.”

 

Eu não pensei coisa ruim, para dizer a verdade. Não pensei em morrer nenhuma vez. Eu tinha certeza que ia melhorar.”

 

A sobrecarga do pulmão diminuiu, a respiração melhorou, o vírus foi embora. E Cuca recebeu alta.

 

Ao todo, dez dias hospitalizado e mais nove em casa em recuperação. Não conseguiu participar de quatro jogos do Santos, inclusive os dois válidos pelas oitavas de final da Copa Libertadores, contra a LDU. Naquela altura, o torneio já era seu grande foco para a temporada. Aquela havia sido só uma interrupção nos planos, antes de chegar à final no próximo dia 30, contra o rival Palmeiras. Motivo de força maior.

 

“Saúde é a coisa principal da nossa vida. Jogo você vai ganhar, vai perder, mas vai ter sempre outra oportunidade. E na doença, não. Sempre peço para Deus para ter saúde.”

Tudo que Deus faz é bom”

Um gol sofrido pelo Santos nas quartas de final da Libertadores é o mais novo argumento de Cuca a favor da fé que o acompanha até no modo de se vestir. Aliás, não é novidade esse lado religioso e como ele influencia no visual. Durante o grande trabalho da carreira no Atlético-MG campeão do torneio continental em 2013 ele usou uma camiseta preta com a imagem de Nossa Senhora no peito.

 

Agora a camisa é outra. É clara, com a imagem de Maria e do menino Jesus. Superstição?

 

“Pô, Nossa Senhora no peito. Isso não é superstição, isso é fé. Maria é a mãe de Jesus, é tudo que eu acredito na vida, se tem alguma coisa em que acredito. Peço para ela as coisas. Deus deve ter tantos pedidos, então vou no caminho mais curto, a mãe leva para o pai e para o filho e vem mais rápido para nós [risos]. Sei que tem muita gente que não acredita, mas minha missão é essa, tentar propagar essa fé que eu tenho”, diz o treinador finalista da Libertadores, de fé reforçada.

Fonte: https://www.uol.com.br/esporte/reportagens-especiais/cuca-relata-dias-de-luta-contra-a-covid-19-em-meio-ao-trabalho-no-santos/index.htm#page2

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