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--- De Santos, primeiro surfista cego do Brasil se inspira no esporte para superar glaucoma ---

por Cidadã FM

em 16 de fevereiro de 2021


Um glaucoma que tirou sua visão aos 24 anos de idade, a primeira prancha de surfe adaptada para cegos no mundo, vencer um torneio de surfe sendo o único deficiente da competição, além de tantas outras situações vividas. Tudo isso faz parte da história de Valdemir Correa, o primeiro surfista cego já registrado no Brasil.

Correa sempre viveu em Santos e enfrentou o glaucoma desde que nasceu. Com o decorrer do tempo, a doença foi se tornando mais agressiva, forçando Valdemir a passar por diversas cirurgias para tentar sanar o problema, mas sem resultados. Até que em julho de 1994, por uma anestesia má aplicada, o santista perdeu a visão para sempre.

– A sensação é de como se você dormisse em um país e acordasse em outro completamente diferente. No entanto, isso não foi o suficiente para me abalar. Fui submetido a essas cirurgias, que foi uma sucessão de erros. A última cirurgia não era nem para correção do glaucoma, era para retirar um cisto que se formou nos meus olhos devido um uso prolongado de um colírio. Entrei na sala de cirurgia para retirar esse cisto enxergando e, quando o anestesista aplicou a anestesia, minha visão desapareceu, foi instantâneo – disse Valdemir.

Mas como o surfista de Santos mesmo disse, isso não foi o suficiente para abalá-lo. Interessado por Surfe desde quando ainda enxergava, Correa lia revistas sobre o esporte e acompanhava programas na TV, mas nunca o havia praticado. Até que em 1997, o santista soube da primeira escolinha pública da modalidade em Santos, comandada pelo professor Cisco Araña, que aceitava atletas com deficiência auditiva.

– Só vim a surfar depois que fiquei cego, graças a um programa de rádio comunitário em São Vicente.O convidado do programa era o Cisco. Foi através desse programa que eu tomei contato com a escola de surfe aqui de Santos pela primeira vez e todo o trabalho que era efetuado com deficientes auditivos. Aí surgiu meu interesse, pois nessa entrevista o professor Cisco declarou que gostaria de atender outras formas de deficiência. Aí eu vi minha oportunidade – contou.

O professor Cisco já tinha experiência em ensinar surfe para surdos, mas nunca um cego. No momento em que Cisco concordou em dar aula para Valdemir, iniciava ali a história do primeiro cego surfista já registrado no Brasil.

– Eu nunca tinha visto uma referência sobre aulas de surfe para cegos, mas falei: ‘Bom, vamos embora então’. Nessa ida para o mar, foi um aprendizado para mim, principalmente porque tinha que entrar no mundo do Val. Levá-lo ao mar, caminhar ao lado, ser os olhos dele, entrar no mundo dele. Tive de colocar vendas, entrar na parte mais cinestésica da vida e sensorial, escutando o vento, escutando o mar, tentando entender esse processo todo – disse Cisco.

E assim começou a aventura de Valdemir pelas águas de Santos. Como esperado, se deparou com dificuldades para conseguir subir na prancha, mas nunca sentiu medo das ondas, nem de sofrer algum acidente. Muito pelo contrário, a sensação foi de muita emoção.

– Foi uma experiência incrível, a realização de um sonho. A sensação de poder realizar este sonho, de estar surfando, é algo inacreditável. Pode ser comparado com o seguinte: você começa a paquerar com uma garota e você ensaia por muito tempo para convidá-la para sair, até que você a convida e ela aceita. É a mesma coisa, a mesma euforia, a mesma alegria – comparou o surfista.

Mas com o decorrer do tempo, o professor Cisco percebeu as complicações no aprendizado que Valdemir estava tendo sem uma prancha específica para ele. Esse impasse durou 10 anos, até que o professor teve uma ideia que mudaria o rumo do surfe para deficientes visuais do mundo todo. Surgia a primeira prancha de surfe para cegos.

– Comecei a desenhar em um papel a primeira prancha adaptada para ele, para que ele pudesse ter mais autonomia. Então comecei a riscar em um guardanapo, em casa e fiz adaptações necessárias. E essa prancha foi desenvolvida por mim, meu desenho. Não foi uma prancha feita para vender, foi para facilitar a vida do Val e a nossa também – afirmou Cisco. – A gente fez umas dez adaptações no desenho, mandei fazer a prancha e a gente lançou em 2006. O Val surfou muito bem no primeiro momento que subiu nela. A gente tinha certeza que o que faltava para ele era as referências táteis em cima do deck (adesivo de borracha antiderrapante que é colado nas partes onde os pés ficam posicionados) – completou.

Cisco Araña e a prancha adaptada para cegos — Foto: Divulgação

Cisco Araña e a prancha adaptada para cegos — Foto: Divulgação

Valdemir se considera um homem realizado por conseguir surfar. Em 2019, competiu em um campeonato de surfe no Guarujá, sem usar parafina (que ajuda na aderência para evitar que o surfista escorregue da prancha). Ele foi o único cego a competir e ficou em primeiro lugar. Ele frisa o quanto o surfe pode ajudar pessoas com problemas de visão.

– O surfe é um esporte fantástico, ele vai muito além do que se pode imaginar. Sou cego e digo, afirmo e reafirmo que o surfe é o esporte próprio para cegos. Ele me deu uma liberdade gigantesca, um universo que outros esportes para cegos não me proporcionariam. Não é um esporte excludente. Eu surfo com meus amigos, com outras pessoas, diferente de outros esportes que o deficiente só trava contato com outros deficientes – comentou Valdemir. – Ele me proporcionou muito mais que um simples esporte, ele me proporcionou a evolução dentro dele. Além de ser uma ferramenta para abrir a consciência das pessoas, porque na medida em que elas me olham surfando, passam a se questionar os pré-conceitos que elas têm – finalizou.

Fonte: https://globoesporte.globo.com/sp/santos-e-regiao/noticia/de-santos-primeiro-surfista-cego-do-brasil-se-inspira-no-esporte-para-superar-glaucoma.ghtml