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--- ‘Governo não cuidou, e agora temos que manter legado’, diz neto de último indígena Juma morto por covid-19 ---

por Cidadã FM

em 21 de fevereiro de 2021


Quando Aruká voltou para sua terra, em 2008, entoou um choro ritual. Era a saudade dos seus mortos — um povo inteiro massacrado sucessivas vezes por invasores do território no sudeste do Amazonas.

O lamento, agora, é pela morte de Aruká. O guerreiro indígena tinha entre entre 86 e 90 anos e era o último homem Juma. Ele morreu nesta quarta-feira (17) vítima da covid-19, doença dos não indígenas que foi levada a sua terra. Deixou três filhas, netos e bisnetos.

As três filhas de Aruká casaram-se com homens do povo Uru-eu-wau-wau, uma vez que a população do povo Juma era pequena demais, resultado dos massacres e doenças.

Isso significa que os descendentes de Aruká carregam no sangue as duas etnias, mas, segundo o sistema patrilinear, são Uru-eu-wau-wau, e não Juma. É por isso que Aruká era considerado o último guerreiro de seu povo.

“É uma falta de responsabilidade do governo ter deixado essa doença chegar dentro da aldeia. A terra é distante da cidade, tem muito pouco movimento, a doença jamais chegaria ali”, diz à BBC News Brasil Bitaté Uru-eu-wau-wau, de 20 anos, neto de Aruká.

‘O governo não cuidou, e agora nós temos que manter o legado do meu avô”, diz. “Ele continua com a gente, vive com a gente, representa o nosso povo através dos netos e dos futuros netos que vierem.”

De acordo com dados da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), 571 indígenas morreram em decorrência da covid-19. Já a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil contabiliza 970 indígenas mortos pela doença. Segundo o censo do IBGE de 2010, a população indígena no Brasil é de 896,9 mil pessoas.

Massacres e mudança

Os Juma são um povo indígena do sul do Estado do Amazonas, na região do Rio Açuã. Eles falam a língua Kagwahiva, uma subfamília linguística dos Tupi-Guarani.

Estima-se que um dia os Juma tenham tido uma população de milhares. Segundo nota da Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), eram 15 mil no início do século 20.

A partir da década de 1940, começaram a ser atacados por pessoas interessadas nas riquezas da terra indígena. O último massacre documentado foi em 1964, quando seringalistas (proprietários de seringais) de Tapauá, um município próximo da terra Juma, dizimaram dezenas de homens Juma, lembra a antropóloga Luciana França, professora do curso de Antropologia da Universidade Federal do Oeste do Pará.

Depois dos massacres, sobrou um grupo pequeno. A mulher de Aruká morreu após doença, e um irmão morreu por ataque de onça. Nos anos 1990, eram apenas seis pessoas: Aruká, suas três filhas, e dois outros membros mais velhos do povo. “Estavam isolados e muito fragilizados sabendo do entorno que os havia matado”, diz França.

Para a indigenista Ivaneide Bandeira, da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, a saga do povo Juma é a saga dos povos indígenas da Amazônia. “Uma saga de morte”, diz.

“Aruká era um símbolo de resistência a todo esse massacre — por arma de fogo, mas também por doenças que são levadas pelo não indígena para dentro das aldeias, que é uma forma de genocídio e etnocídio cultural”, afirma.

Em 1998, a Funai, tendo de lidar com a questão de um povo isolado, fragilizado e sem perspectivas de continuidade após seguidos massacres por não indígenas, transferiu os últimos remanescentes do povo para a aldeia Alto Jamari, na terra indígena Uru-eu-wau-wau, em Rondônia. Não haveria o problema de língua ou costumes bastante diversos entre os povos, já que tinham uma língua semelhante e uma história cultural em comum.

Ali, as três filhas de Aruká casaram-se como homens Uru-eu-wau-wau. Tiveram filhos e netos.

Mas os Juma eram minoria na aldeia, e Aruká viveu bastante isolado. Passava o dia dentro dentro de casa ou sozinho na mata, lembra França, que viveu na aldeia durante um ano. “Mataram o seu povo, depois o mataram socialmente. Era como uma sombra no mundo”, diz França.

Segundo Bandeira, da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, o sonho de Aruká era voltar para sua terra.

Retorno

O retorno à terra Juma, decidida após pedido do Ministério Público Federal no Amazonas, foi feito aos poucos.

Em 2008, França acompanhou Aruká e outros indígenas Juma e Uru-eu-wau-wau a uma expedição de volta à terra Juma, dez anos depois de terem se mudado do local.

Para chegar à terra, são cerca de quatro horas de Porto Velho até a margem do rio Açuã. Depois mais uma hora e meia de barco.

“Pouco a pouco e não sem alguma dificuldade, eles iam reconhecendo as curvas do rio e relembrando os caminhos por onde passaram. Enquanto desembarcávamos nossas coisas e preparávamos o acampamento, Aruká, sem demora, embrenhou-se na mata como se quisesse ver com os próprios olhos a terra que havia deixado para trás”, escreveu França em um registro da visita.

“Até a expressão quase sempre triste de seu rosto parecia mais aliviada.”

Para ela, foi “foi muito impressionante ver a transformação do Aruká” no retorno à terra Juma. “Quando foi para terra ele, ele desabrochou”, diz ela à BBC News Brasil. “Foi muito emocionante.”

Uma das primeiras coisas que Aruká fez foi ir até o local onde sua esposa estava enterrada. Ali, entoou seu “ajapyryty”, o choro ritual repleto de emoção para lembrar e homenagear os mortos, diz ela.

“E na primeira noite em que dormimos lá, cada um na sua rede, acampando no mato, foi isso. Um começava a chorar, outro chorava também.”

O retorno se consolidou. As filhas de Aruká, genros e alguns netos também foram viver na terra Juma.

O fotógrafo Gabriel Uchida, que trabalha com os Juma e os Uru-eu-wau-wau desde 2016, lembra como Aruká era forte. “Era um guerreiro. Contava histórias das brigas com os seringueiros, de como, quando atacaram, o povo Juma fugiu ou atacou de volta.”

“Uma vez, ele me levou a um cemitério da aldeia afastado, bem longe. Imagina um senhor de cerca de 90 anos caminhar mais de uma hora no meio do mato, no meio de chuva, passando por área alagada. É um exemplo de como ele era forte”, diz.

Quando chegou no local onde a esposa estava enterrada, ele não se cansou: cuidou da maloca, tirou gramas, puxou corda de cipó, descreve. Apesar da idade, ele tinha bastante autonomia, saía para tomar banho, caçava, fazia tudo sozinho, diz.

Mas ele sempre falava com tristeza sobre como antigamente haviam muitos Juma, e como naquele momento ele era o último. “Ele era forte, firme, mas sentia essa solidão, de ser só ele e as três filhas. Mas mesmo assim, continuava praticando as coisas todas da cultura dele.”

Descendentes

Um dos grandes sonhos de Aruká era construir uma maloca grande como havia antigamente na terra Juma. Dois anos atrás, o sonho foi realizado.

Bitaté lembra como o avô lhe ensinou a construir a maloca típica do povo Juma. “Ensinou toda a arquitetura, como fazia. Agora eu sei construir a maloca do povo Juma”, diz.

Além disso, gostava de ensinar os netos a caçar e a reconhecer as coisas na mata. Bitaté diz que o avô dava atenção aos netos, ensinando a pesca e a história do povo Juma.

Segundo Bandeira, Aruká “tinha uma preocupação muito grande de contar a história do massacre, contar como eles eram muitos e como foram todos mortos em conflito com seringueiros, caçadores e invasores da área dele”. “Queria passar essa coisa de resistência para os netos e para filhas.”

Cerca de 20 indígenas viviam na terra, alguns de vez em quando voltando para a cidade. Para Bandeira, deveria ter havido um cuidado maior do Estado brasileiro em relação à covid-19.

“Qualquer um que fosse entrar deveria ter de fazer quarentena e teste antes de entrar. Tinha que ser uma exigência. Tem que fazer prevenção e barreira de controle. É chocante.”

Assim como é “chocante”, para ela, que depois de ter resistido a massacres e doenças que dizimaram seu povo, o último homem Juma agora tenha perdido a vida por causa da covid-19.

“Por um lado, sim, ele era o último Juma, e isso é avassalador”, diz França, da Universidade Federal do Oeste do Pará.

“É avassalador que ele tenha morrido primeiro pela morte de seu povo, que foi massacrado pelos brancos, depois ter sido transformado num párea socialmente e agora por completa incompetência e incapacidade do Estado brasileiro de fornecer medidas protetivas a um povo que já tinha sido tão vulnerabilizado por esse próprio estado brasileiro.”

Mas os Juma, diz ela, não acabaram. “Os Juma estão lá, sim.”

“Os Juma não acabaram, não foram extintos”, concorda Bandeira. “Eles permanecem e são símbolo de resistência.”

As três filhas de Aruká, diz ela, sobreviveram a essa história de massacres. E tiveram filhos e netos.

“Há netos e netas que tomaram a decisão, que pra mim é surpreendente, e eu não vi em nenhum outro povo, de se autodeterminar Juma-Uru-eu-wau-wau. Tomaram a decisão de manter o povo Juma no nome”, conta Bandeira. Além disso, diz ela, há um neto que se autodeterminou só Juma.”

“É uma decisão deles enquanto netos e povo de permanecer e resistir.”

Fonte:https://www.bbc.com/portuguese/brasil-56132019

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