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--- Renan supera medo do fim e vive recomeço no Itapetininga: “Pensei que nunca mais fosse jogar” ---

por Cidadã FM

em 22 de março de 2021


Os dias se transformaram em meses sem nenhuma pressa. Sem poder levar o pé direito ao chão, Renan Buiatti lutava contra o incômodo que a bota ortopédica causava. Lutava, também, contra a incerteza com a qual aquela lesão pintava seu futuro dentro e fora de quadra. A mudança frustrada para a França, a falta de um caminho a seguir e a carreira em risco. Mas, em uma ligação, o tempo acelerou. Hoje, depois de ficar oito meses parado, o oposto lidera a maior surpresa da temporada no vôlei nacional. À frente do Itapetininga, derrubou o todo-poderoso Cruzeiro rumo a uma inesperada semifinal de Superliga, a primeira de um projeto ainda em evolução.

Nas semifinais, o Itapetininga encara o Minas. Os jogos serão disputados em Saquarema, no Centro de Desenvolvimento de Vôlei, para diminuir os riscos da pandemia de coronavírus. Veja as datas e horários dos jogos no fim da matéria.

O caminho até aqui, porém, não foi fácil. Na folga de fim de ano em 2019, Renan pisou descalço no asfalto quente. Em pouco tempo, a bolha, que parecia inofensiva, infeccionou e se transformou em um problema sério para o oposto, àquela época no Campinas. Em meio à Superliga, passou a conviver com a dor e só foi buscar tratamento no fim da temporada. Com uma negociação encaminhada com o Tours, da França, passou por uma cirurgia para limpar a infecção. Só não esperava ficar tanto tempo longe das quadras.

– Fiquei 70 dias sem colocar o pé no chão, esperando, fazendo aquela câmara hiperbárica, 1h30, todos os dias. Foi muito sofrido. Demorei muito para fazer a cirurgia. Não deveria ter continuado a treinar e jogando em Campinas. Mas por uma série de fatores, fui ao limite. No dia que eu fui fazer a cirurgia, não consegui dormir. O médico virou para mim e disse que queria abrir meu pé no dia seguinte. Imagina o médico falar isso para você, desse jeito. Comecei a tremer na hora. Pensei que nunca mais fosse jogar. Não dormi, fiquei a noite toda pensando: “Pronto, vou acordar e meu pé não vai estar lá”. Foi tenso – afirmou.

Ainda assim, embarcou com a esperança de dias melhores na França. A tentativa, porém, foi frustrada diante da incerteza do tempo de recuperação.

– Eu cheguei a ficar quatro semanas em Tours, na França. Eu tinha feito a cirurgia no pé, estava usando aquela botinha que vem só até a metade do pé, não podia forçar a ponta. Eu cheguei lá, eles queriam que eu continuasse. Fomos a médicos, fiz ressonância, tudo o que precisava ter feito na época. Faltava menos de um mês para começar o Campeonato Francês, então não tinha como eles me segurarem, sendo que eles teriam que contratar outra pessoa para o meu lugar. Não tinha o que fazer, quebraram o contrato e eu voltei para a casa dos meus pais.

Em Uberlândia, ficou mais de um mês em meio a treinos físicos até conseguir pisar em uma quadra. Passou duas semanas treinando com o time da cidade mineira, do técnico Manuel Honorato, até receber a ligação de Pedro Uehara, o Peu, técnico do Itapetininga.

– Fiquei duas semanas com o Uberlândia. Mas duas semanas depois de oito meses que eu fiquei parado. Eu nunca tinha ficado oito meses parado na vida. Estava pesado, parecia que tinha 200 quilos. O Peu me ligou, eu falei com ele, expliquei que estava treinando só há duas semanas. Falei que teriam de ter paciência. E ele falou que queria, que fariam de tudo para que eu melhorasse. E na semana seguinte eu já estava jogando contra o Minas. E fiz 20 pontos, eu acho – lembra.

A aposta se mostrou certeira. Mesmo ainda longe de seu auge físico, Renan logo se transformou na maior referência do time paulista. Já nas primeiras rodadas, passou a liderar as estatísticas de pontuação. Maior pontuador da Superliga na fase de classificação, também aparece bem nas estatísticas de bloqueio e saque. Nas quartas de final, diante do time de melhor campanha até ali, ignorou qualquer favoritismo rival para levar o Itapetininga à primeira semifinal de sua história. Um caminho e tanto para quem, meses antes, pensou que sequer poderia jogar.

– É um recomeço. Eu fiquei com medo de não voltar, de não conseguir começar de novo. Foram dias, meses muito difíceis. Graças a Deus, deu tudo certo.

Em Itapetininga, Renan se reinventou. Quando surgiu para o vôlei nacional, ainda como central, impressionava pela altura, com 2,17m, e pela facilidade em distribuir pancadas em quadra. Chegou à seleção, sempre com estatísticas impressionantes, mas sem conseguir se firmar. Hoje, aos 31 anos, lidera o jovem time paulista em sua terceira edição de Superliga.

Renan Buiatti, oposto do Itapetininga — Foto: Rogério Augusto/Vôlei Itapetininga

Renan Buiatti, oposto do Itapetininga — Foto: Rogério Augusto/Vôlei Itapetininga

– Nosso ponteiro, Adriano, tem 19 anos. Titular de uma Superliga e chegando à semifinal. Então, nosso time é novo, nossa média de idade é muito nova. Eu sou muito mais velho que os meninos da meia idade, que têm 23, 24. Esse ano, por causa de tudo, estamos sem jogando sem torcida. Mas quando eu jogava em Campinas e enfrentava o Itapetininga aqui, era um caldeirão. Todo mundo da cidade torce, gritando o jogo inteiro. Com a torcida, fica complicado jogar aqui. Eles estão acompanhando tudo pela internet. A gente passa na rua, as pessoas buzinam, cumprimentam. As pessoas acompanham bem de perto o time, é bem legal.

O caminho para as duas vitórias sobre o Cruzeiro nas quartas passou por horas de vídeos e muita conversa nos treinos. Peu, o técnico, parecia prever todas as jogadas do time mineiro e tentou simular todas as situações possíveis antes das partidas. Agora, Renan afirma que o time tem de seguir os mesmos passos em busca da final. Um sonho que parecia muito mais distante quando dava passos tortos por conta da bota no pé.

– O Peu ficou a semana inteira mostrando vídeos. A gente treinando, ele parava e falava: “Nessa hora, tal pessoa vai fazer tal coisa”. Foi muito estudo, muito treino. Agora que a gente viu que dá, é jogar o nosso melhor. De novo, voltar a ver vídeos, treinar bastante. Terminamos em oitavo, perdemos jogos que não poderíamos ter perdido na fase de classificação. A gente já havia feito coisas boas nessa temporada. Mas olha como dois jogos mudam a temporada inteira. Para quem está começando agora, pode mudar a vida. Dois jogos. Mas o que a gente passou para chegar até esses dois jogos…

Confira os jogos do confronto entre Itapetininga e Minas

 

Jogo 1
Dia 7 de abril, 4ª feira
16h30 – Itapetininga x Minas (SporTV2)

Jogo 2
Dia 10 de abril, sábado
19h – Minas x Itapetininga (SporTV2)

Jogo 3 (se necessário)
Dia 12 de abril, 2ª feira
19h – Itapetininga x Minas (SporTV2)

Fonte:https://globoesporte.globo.com/volei/noticia/renan-supera-medo-do-fim-e-vive-recomeco-no-itapetininga-pensei-que-nunca-mais-fosse-jogar.ghtml