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Músicos da USP e de outras instituições se unem para produzir um espetáculo audiovisual on-line

por Painel Cultural
em 16/mar/2021

Como transformar o desespero de ver o Brasil batendo recordes na pandemia, com mais de 2 mil mortos por dia? Como levar esperança e solidariedade e reivindicar um governo que garanta melhores condições de saúde, natureza e humanidade? Com esse questionamento, 30 músicos da USP, Teatro Municipal, Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) e Theatro São Pedro fundaram o grupo Vocci in Musica e lançaram o projeto Vocci in Mvsica na Rede. Em 31 minutos e 58 segundos, jovens estudantes e profissionais sintetizam um ano de trabalho, reflexão e confinamento no primeiro concerto on-line que o projeto está lançando.

“As vozes tentam despertar o alento e resgatar os sonhos de todos”, explica Pietro Barbosa, coordenador do projeto e aluno de Regência do Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. “Esse programa leva a nossa solidariedade a todos que perderam amigos e familiares para a covid 19. Fundamos o Vocci in Mvsica oficialmente em 2020. Mas tudo começou no final de 2019, quando tivemos a ideia de executar algumas peças de Gustav Mahler, meu compositor favorito, com alunos do nosso departamento.”

Com a pandemia logo depois das férias do ano passado, o que era para ser um pequeno madrigal na USP foi se transformando e crescendo com a adesão de cantores e músicos profissionais de universidades e teatros da cidade. Com a disposição de jovens entre 20 e 30 anos, o projeto ganhou força. Formou-se o projeto Vocci in Mvsica na Rede e esse primeiro concerto audiovisual recebeu o incentivo da Lei Aldir Blanc da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado de São Paulo.

“A música é o retrato perfeito para transmitir tudo que desejamos.”

“Nessa narrativa nós vemos o processo que todos estamos passando. Há os picos de emoção, altos e baixos, os momentos de tristeza profunda, de solidariedade. Mas o mais importante de tudo é a mensagem de esperança que está no final do vídeo”, diz Ivy Szot, cantora lírica do Theatro São Pedro, bacharel com habilitação em Canto e Arte Lírica pela USP. Ivy fez o roteiro do audiovisual procurando transmitir a mensagem de todos os artistas. “Esperamos que um futuro promissor renasça de tudo isso que estamos passando com melhor governo, melhores condições de vida, de trabalho e de humanidade. E a música é o retrato perfeito para transmitir tudo que desejamos.”

Numa cena em preto e branco, Pietro Barbosa rege Ave Maria, de Gustav Holst (1865-1934). Está em uma igreja totalmente vazia, mas o coro feminino a oito vozes ecoa no espaço. A câmera percorre o altar, cada detalhe das imagens do teto e das paredes da paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Socorro (SP).

Pietro rege um momento poético de Holst, mas também suas lembranças pela cidade de Socorro, onde cresceu e vive. “Nasci em São Paulo, mas me mudei para esta cidade com a minha mãe quando tinha 6 anos”, conta. “No fim, sou mais socorrense do que paulistano. Sempre gostei de música. E passei a tocar clarinete na Banda Santa Cecília, de marchas e coreto. Foi amor à primeira vista. Daí para a frente estava cada vez mais envolvido, tocando em mais lugares, fazendo aulas particulares.”

Ele segue regendo. Na sequência do vídeo, apresenta Franz Liszt (1811-1886), com Ave Maris Stella, para órgão e coro misto. Os rostos dos jovens cantores aparecem imersos em um céu de nuvens, e a harmonia do coro com o órgão de Bruno Tadeu é especialmente sensível.

“Os rostos dos jovens cantores aparecem imersos em um céu de nuvens, e a harmonia do coro com o órgão de Bruno Tadeu é especialmente sensível.”

Liszt continua com a sonata Petrarca II nas mãos do pianista Vinícius Benalia Penteado, aluno de Regência da ECA e de Piano da Escola de Música do Estado de São Paulo Tom Jobim. “Tivemos participações muito especiais”, afirma Pietro. “Tentamos fugir dos habituais virtual choirs. Ficamos pensando como seria possível sair dos quadradinhos na tela e fazer algo diferente.”

Ivy Szot, em seu roteiro, buscou, como diz o regente Pietro Barbosa, levar o espectador para um lugar onde não há pandemia, nem dor e mortes. “O resultado final foi fantástico, pois o Stig, editor e diretor de vídeo, trouxe essa luz em cada detalhe de cor ou imagem sobreposta.”

Johannes Brahms (1833-1897) também está presente em quatro quartetos para voz e piano. Os cantores emocionam pelos olhares, pelas mãos que se movimentam acompanhando cada nota do piano de Felipe Gazoni.

Brahms continua sendo interpretado. O vídeo segue, no entanto, apresentando, além das vozes, os cantores em suas casas confinados com seus cães e gatos. Eles veem a cidade pelas suas janelas, contemplam a chuva e acompanham os quadros da pandemia… São imagens a cores. Cenas de profunda solidão, mas poéticas.

O encanto, a esperança, a força da arte, no entanto, ressoam mais alto. Levada pelas vozes dos 30 cantores na composição de Morten Lauridsen (1943), a bailarina Camila Mazolini Panontim desenha a leveza com um esvoaçante vestido vermelho. “A coreografia sobre a música de Lauridsen tem uma letra que diz sobre o cuidado consigo mesmo”, explica Pietro. “Camila dança em uma grande sala repleta de janelas do antigo Paço Municipal de Socorro e atual biblioteca.”

Para o final, Pietro, Ivy e todos os integrantes do Vocci in Mvsica fazem uma surpresa: “Apresentam a canção Amor, de 1973, do conjunto Secos & Molhados”, observa o regente e diretor artístico. “Fazemos um convite à alegria. Com essa música, a proposta é se soltar. Ser o que quiser. Buscar”.

Clique e Ouça, veja e aprecie o resultado.

Fonte: Jornal da USP

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