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Você se conhece? Provavelmente não tão bem quanto imagina

Quando você escolhe entre duas coisas, provavelmente acredita que sabe muito bem por que preferiu A, em vez de B. Mas será mesmo?


Por PsicoMundo em 01/fev/2021

Imagine que te mostrem retratos de duas pessoas diferentes, e peçam para você dizer qual delas parece mais atraente. Até aí, tudo bem.

Mas, logo em seguida, pedem para que você explique o porquê.

Isso é mais difícil.

O que você gosta nele ou nela? Talvez haja algo atraente em seus olhos? Ou será o cabelo? Pode ser ainda que você goste dos traços fortes da mandíbula ou da arcada dentária perfeita, quem sabe?

Mas será que essas são realmente as razões pelas quais você acha uma pessoa mais atraente do que a outra?

Depois de ler sobre o trabalho do sueco Petter Johansson, é possível que você comece a duvidar de suas próprias escolhas.

Johansson, que é psicólogo experimental, adora mágica. Ele não recebeu treinamento oficial, mas aprendeu alguns truques básicos.

Faz tempo que os mágicos entenderam o fenômeno da “cegueira à mudança”. Ao distrai-lo, eles são capazes de trocar uma carta, digamos, o Rei de Paus pelo Rei de Espadas, e você provavelmente não vai perceber.

As habilidades mágicas rudimentares de Johansson são úteis para seus experimentos, uma vez que, alguns anos atrás, ele e seus colegas decidiram testar não a cegueira à mudança, mas a “cegueira à escolha”.

Deixe-me explicar.

Em seu primeiro experimento, Johansson mostrou a cada participante retratos de duas pessoas diferentes. E eles tinham uma tarefa simples: escolher a que achavam mais atraente.

Em seguida, ele entregou a fotografia a eles, e pediu para justificarem sua seleção.

Mas, sem o conhecimento dos participantes, Johansson usou um truque de mágica para fazer uma mudança; na verdade, ele entregou a eles a foto da pessoa que eles não haviam escolhido.

Você acha que todos perceberam? Se sim, você está enganado.

75% não notam

Surpreendentemente, apenas um quarto dos participantes percebeu a mudança, apesar do fato de os rostos serem de pessoas diferentes e de haver diferenças facilmente identificáveis ​​entre elas. Uma poderia ter cabelo castanho e usar brinco; e a outra ser loira, e não usar brinco.

Após a mudança, os participantes explicaram por que escolheram a pessoa que, na realidade, não haviam escolhido.

“Quando eu perguntei a eles: Por que você escolheu este rosto?, eles começaram a explicar por que aquele era o rosto preferido, mesmo que, segundos antes, tivessem escolhido o outro”, diz Johansson.

Quando ele explicava o que havia feito, as pessoas em geral ficavam surpresas e, muitas vezes, incrédulas.

Os casos mais intrigantes foram aqueles em que os participantes justificaram a escolha manipulada destacando algo ausente em sua escolha original.

“Por exemplo, se eles dissessem: ‘Ah, eu prefiro este rosto porque gosto muito de brinco’, e a pessoa que eles originalmente preferiram não usava brinco, então podemos ter certeza de que seja lá o que for que os tenha feito tomar essa decisão, não pode ter sido os brincos.”

O que podemos concluir?

Ao que parece, não temos uma compreensão clara de por que escolhemos o que escolhemos. Muitas vezes temos que descobrir por nós mesmos, assim como temos que descobrir os motivos e razões dos outros.

A janela pela qual tentamos ver nossa própria alma é obscura e turva.

Apelo político

A pergunta “por que você acha que um rosto é mais atraente do que outro” não é trivial. A atração sexual é importante: a sobrevivência da espécie humana depende dela.

Mas Petter Johansson também usou seus truques para analisar nossas escolhas em outra área importante: a política.

Em um estudo, ele fez uma série de perguntas a um grupo de suecos sobre seu posicionamento em relação a questões políticas — como, por exemplo, se deveria haver aumento no imposto sobre o petróleo ou se os benefícios de saúde deveriam ser cortados.

Esses temas tendem a dividir a esquerda e a direita suecas.

As respostas por escrito à pesquisa foram então entregues aos participantes — só que, como você já deve imaginar, não eram as respostas verdadeiras. As pessoas de esquerda receberam respostas mais à direita; e as de direita, respostas mais à esquerda. Em seguida, elas foram convidadas a justificar suas escolhas.

Mais uma vez, a maioria das pessoas não conseguiu detectar a mudança.

Um sujeito que um minuto antes havia assinalado que apoiava um aumento no imposto sobre a gasolina, passou a explicar por que acreditava que esse aumento não deveria ocorrer.

E as explicações que deram faziam sentido.

“Eles disseram coisas como: ‘É injusto com a população que mora fora das grandes cidades, porque eles têm que dirigir muito mais’.”

Não havia nada de estranho no raciocínio deles, a não ser que alguns minutos antes, eles não teriam justificado isso.

É evidente que nos falta autoconhecimento a respeito de nossos motivos e escolhas. E daí? Quais são as implicações desta pesquisa?

Tolerância

Talvez um dos pontos seja que devemos aprender a ser mais tolerantes com as pessoas que mudam de ideia.

Tendemos a ter sensibilidade aguçada para a inconsistência, seja quando nosso parceiro muda de ideia sobre se quer comer comida italiana ou indiana, ou quando um político que endossou uma política no passado, passa a apoiar uma posição oposta.

Se muitas vezes não temos uma ideia clara de por que escolhemos o que escolhemos, certamente deveríamos ter alguma liberdade para mudar nossas escolhas.

Também pode haver implicações mais específicas sobre como transitamos em nossa era, um período marcado pela crescente polarização política e cultural.

Rótulos ou ideais?

Seria natural acreditar que quem apoia um partido de esquerda ou de direita o faz porque está comprometido com a ideologia desse partido: acredita no livre mercado ou, ao contrário, em um papel mais forte do Estado.

Mas o trabalho de Petter Johansson mostra que nosso compromisso mais profundo não é com políticas particulares, uma vez que, usando sua técnica de mudança, podemos ser persuadidos a endossar todos os tipos de políticas. Em vez disso, “apoiamos um rótulo ou um time”.

Em outras palavras, provavelmente superestimamos até que ponto um eleitor de Donald Trump ou de Joe Biden, apoia seu candidato por causa das políticas que ele promove. Na verdade, eles provavelmente são do “Time Trump” ou do “Time Biden”.

Um exemplo surpreendente disso surgiu nas últimas eleições americanas. Os republicanos são tradicionalmente a favor do livre comércio, mas quando Trump começou a defender políticas protecionistas, a maioria dos republicanos continuou a apoiá-lo, aparentemente sem sequer perceber a mudança.

Antes das eleições americanas de 2016, em que Trump derrotou Hillary Clinton na corrida pela Casa Branca, Johansson fez outro experimento.

Ele pediu aos eleitores que avaliassem seu candidato preferido com base em caráter, experiência etc., e depois mudou suas respostas, melhorando as avaliações do candidato de quem não gostavam.

Funcionou.

As pessoas apresentaram razões sobre por que, na verdade, tinham uma mente bastante aberta entre os dois.

Surpreendentemente, esse truque acaba tendo um impacto duradouro.

Engane uma pessoa fazendo-a acreditar que alguém com cabelo loiro é mais atraente do que alguém com cabelo castanho, e ela provavelmente confirmará essa preferência quando as duas fotografias forem mostradas a ela posteriormente.

O mesmo vale para opiniões políticas. Depois de influenciar as preferências políticas dos participantes, Johansson testou seus pontos de vista na semana seguinte.

Tendo justificado suas “novas” preferências alguns dias antes, parecia que “haviam ouvido seus próprios argumentos” e continuavam pensando igual.

Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/geral-55333179